“São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as
coisas e me revolto.”
(Carlos Drummond de Andrade)
Artigo
raro nos dias de hoje, a paz, por isso mesmo, torna-se cada vez mais essencial.
Mas o que é a paz, o que vem a ser estar em paz? Em geral supomos ingenuidades
várias a respeito do assunto e consideramos que paz é apenas a ausência de
conflitos, o que é um engano, já que conflitos (problemas) sempre existirão em
cada um e, portanto, em todos. Esta suposta paz, puramente do sossego, está mais
para algum tipo de letargia, e letargia é estagnação, pois, observando de modo
mais rigoroso o tal sossego, vemos que se trata de um estado de acomodação (ou pequena "paz provisória"), não
de paz mesmo.
Em
seguida, pensamos em paz ligada a uma outra questão, que é a da justiça entre
os homens. Aí estabelecemos que só há paz quando existir justiça (igualdade,
equanimidade) entre os conviventes, o que muitas vezes é certo, já que a
desigualdade gera opressão de uns sobre os outros. As mazelas do mundo bem o
demonstram esta relação. E disso, dessa relação entre justiça e paz não podemos
fugir, posto ainda haver muito o que, nela, ser melhorado, aperfeiçoado nas relações humanas. Infelizmente, o homem ainda é o lobo do homem.
Sem
querer negar o acima exposto, chamo a atenção para a relação entre paz e
cultura. Cultura de paz. Baseio-me na premissa de que temos mais
chances de paz (pessoal, social-coletiva, etc) se estivermos conectados a uma
cultura de valores reais, sinceros e possíveis de serem vividos. Nesse ponto,
vale salientar que um dos opostos de tal cultura é o reino da futilidade e da má-querência
que hoje impera e suplanta, para nossa tristeza, as possibilidades de trazer à
luz aquilo que é mais nobre no ser humano, já que a futilidade, por definição,
significa deter-se sobre a superfície das coisas e não mergulhar nas estranhas
de suas essências, especificamente a essência de algo maior, coisas que
realmente nutrem o espírito humano.
Abarrotados de problemas, caímos na futilidade e esta tem como (falso) contraponto a distração, o entretenimento que nos idiotiza. Quando estressados de tanta bobagem promovida a rodo, refugiamo-nos aonde? Nalguma distração que nos venha a significar, ao menos em parte, um paliativo para nossas dores, sem, no entanto, nunca tocar mais profundamente nos pontos em que precisamos, as questões reais que nos pesam de verdade e que de nos exigem uma atenção branda, compreensiva e firme.
Abarrotados de problemas, caímos na futilidade e esta tem como (falso) contraponto a distração, o entretenimento que nos idiotiza. Quando estressados de tanta bobagem promovida a rodo, refugiamo-nos aonde? Nalguma distração que nos venha a significar, ao menos em parte, um paliativo para nossas dores, sem, no entanto, nunca tocar mais profundamente nos pontos em que precisamos, as questões reais que nos pesam de verdade e que de nos exigem uma atenção branda, compreensiva e firme.
Já
pensando em cultura mesmo, lembramos do termo cultura de paz, o que nos
remete a um conceito e não simplesmente a uma ideia de que paz é tão somente
algo espontâneo, digamos assim surgido do nada, de uma tal boa-vontade (pueril, ingênua). O termo cultura de paz traduz um aprendizado, uma sistemática
que, sem o critério da sinceridade, não logra êxito, visto ser a sinceridade a
base para que sejamos honestos com os nossos sentimentos e com os sentimentos dos
outros, respeitando a vida que há em cada uma e, portanto, em todos.
Um
dos primeiros pontos de uma cultura de paz é não transformar conflitos em
confrontos, como nos diz o professor paulista Ubiratan D’Ambrosio:
“Conflito é o estado provocado por reações distintas, pois os indivíduos são diferentes, e reagem diferentemente a estímulos da mesma realidade. Exemplo: um indivíduo que é vidente vê a realidade de uma forma, enquanto outro que não tem visão vê essa mesma realidade de forma diversa. A realidade é a mesma, mas cada um vê essa realidade diferentemente, recebe as informações dessa realidade de maneira distinta. Muitas vezes, o fato de a realidade ser vista diferentemente provoca ideias, julgamentos, interesses, opiniões diferentes. Maneiras diferentes de ver, sentir, reconhecer a realidade podem resultar em ideias, julgamentos e ações conflitantes. Todas as relações humanas trazem intrínsecas a elas um conflito. Mas o conflito não pode se transformar em confronto. Podemos conviver com conflitos conceituais e de ideias, de interesses, de julgamento, de opiniões, mas o confronto destrói. Confronto é choque, é enfrentamento, é guerra, com o objetivo de subordinar e mesmo eliminar uma das partes em conflito. A eliminação do outro, do diferente acabaria com o conflito. Por exemplo, os confrontos entre torcidas de times futebol seria resolvido facilmente se houvesse apenas um time. Mas não haveria mais jogo. Pode-se resolver qualquer conflito eliminando o outro, penalizando-o de maneira desencorajadora ou transformando-o, o que equivale a eliminá-lo. É urgente e prioritário evitar que o conflito gere confronto, mas não recorrendo à eliminação de uma das partes conflitantes, e sim a partir do que denominamos resolução pacífica de conflitos. Este é o caminho para a paz, que pode evitar a recorrência do confronto. Não haver mais conflito no futebol porque só há um time; não haver mais conflito religioso, porque todos adotam a mesma religião; não haver mais conflito na ciência, porque todos seguem o mesmo tipo de conhecimento científico; não haver mais conflito filosófico, porque todos estão seguindo a mesma filosofia. Tudo isso significa a negação do conceito de ser humano, com vontade própria e criatividade. Acredito que lutar pela paz e pela sobrevivência só faz sentido se preservarmos a dignidade do ser humano, com base na convivência entre os diferentes, não na homogeneização da espécie. Como diz Lois Lowry, “Não se trata de acabar com o conflito, pois isso pode representar a homogeneização da civilização.” Devemos ser capazes de conviver com aquele que é do outro time, que é do outro sexo, que é da outra cor, que fala outra língua, que segue outra religião. A força da convivência entre diferentes é aquilo que chamamos dignidade do ser humano, cada um mantendo-se como é, sendo o que é.”
O texto acima consta do documento Cultura
de paz: da reflexão à ação, publicação da Unesco que o(a) leitor(a)
encontra "aqui".
A leitura do exposto em todo o documento nos fornece um roteiro interessante.
Indo
mais adiante, recomendamos a leitura do excerto do Capítulo I do livro Pedagogia da Convivência de Xesús R.
Jares, que pode ser acessado "aqui". Longe da ideia de paz como espontaneísmo e letargia, podemos ver que se trata de uma decisão dentro de uma sistemática (pedagogia) da convivência. É difícil? Sim, pois nos tem sido difícil acreditar em paz, já que os fatos do cotidiano são muitos e, dentre eles, há os drásticos. Porém, se não nos colocarmos a pensar no rumo de uma cultura de paz, estaremos fechando a porta do amanhã, o que significa, desde já, nos entregarmos às coisas, aos acontecimentos que, sem pestanejar, nos engolirão, como já o fazem. Por fim, para um incentivo a mais, partamos de um ponto chamado paz pessoal (interior) e exercitemos (ousemos, ao menos) uma prática acessível a qualquer pessoa: meditação. E, ao ler isto, não coloque o(a) leitor(a) nenhuma barreira de sentido religioso (doutrinário), pois a observação aqui quanto a tal prática é objetivamente terapêutica. Indico, pois, uma matéria do Globo Repórter: "O poder da meditação".
* Sobre Webston Moura, acesse, neste blog, a página Colaboradores.
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